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Agonia e Ágape

Ter alguns dias livres de internet fora de Lisboa é bastante saudável. Há mais espaço para limpar a casa, visitar familiares, para apreciar o sol e sentarmo-nos no jardim a fazer uma fraca figura tentando pintar uma macieira no caderninho de aguarela... Há especialmente mais espaço (sobretudo mental) para ler quase de seguida o Ágape, Agonia , de William Gaddis. Porque é necessária alguma disposição. Quando cheguei ao posfácio, escrito por Joseph Tabbi, e ele me diz que na «história secreta» do livro se encontra ligação a Thomas Bernhard (em especial ao Betão), eu respondo-lhe: bem, sr Tabbi, isso não é nada secreto, é até algo gritante ao longo do livro. Porque para além das referências musicais e do "resmungar", é um monólogo cheio de modulações que chegam a ser avassaladoras em certos momentos, de uma fala que enreda com fios que levam de um pensamento a outro, até se estar preso dentro da angústia da personagem como numa teia pegajosa. É o piano mecânico, não ...

Programa para próximos dias:

Alphaville , Jean-Luc Godard , 1965 (fonte aqui)

Divagação #3 (sobre quartos)

O lugar perfeito para escrever sobre um quarto que seja seu, é na casa de outros. O dia propício, é aquele que inicia com um superior de hierarquia familiar a colocar-te  no lugar que, segundo ele, te pertence - o da obediência à sua vontade. Já repeti que por vezes os livros nos são tão próximos, que não há o que escrever sobre eles. Ou haverá, apenas não lhe sentimos a necessidade; são mais sentidos que pensados, se o posso dizer. Um quarto que seja seu , de Virginia Woolf, apesar de tudo, não é um desses. Não sei se existirão muitos livros que se aproximem com tanta perspicácia de questões que já coloquei sobre um assunto específico, de situações gritantes ou subtis das quais já me apercebi. Que retrate mesmo parte da minha realidade exterior. E ainda assim, leio-o sem grande emoção. Se calhar mesmo porque já pensei no mesmo; porque a situação da mulher na sociedade vem-me sendo mostrada a partir de casa, porque tenho bons exemplos das dificuldades colocadas às mul...

Leitura matinal

Já é Primavera há quase um mês, e eis-me aqui a segurar a caneca de chá com as mãos ( ambas as mãos seria redundante ). O calor vindo dela ainda é agradável. Finalmente uma manhã com tempo para leitura silenciosa; para avançar por entre palavras que falam de palavras, em Llansol: a liberdade da alma . É sempre preciso silêncio para ler sobre Llansol, para descobrir mais sobre aquela escrita luminosa e subtil e, especialmente, para me descobrir por entre ela, por entre o tempo que não existe, por entre a sua relação com a música, por entre a sua desmemória (Lucia Castello Branco diz: (...)Ora, se os nomes já não correspondem às coisas, é possível que as coisas possam enfim se mostrar em sua coisidade e em sua peremptoriedade inominável, inclassificável, intraduzível (...) , e eu respondo: sim, sim é isso!). É a aventura de que fala José Manuel de Vasconcelos (...) uso a palavra aventura um pouco no sentido em que as nossas infâncias eram agitadas por diversos «mundos de aventu...

Pascal Quignard e eu #4

Jean de La Bruyère tinha uma preferência acentuada pelo verde. Com uma guitarra, fazia palhaçadas. Era feio. A parte de baixo da sua cara foi-se tornando mais pesada e achatada. Os lábios eram grossos e talhados por uma espécie de amuo cada vez mais demorado. Como toda a gente, esticava as mãos, o nariz, o olhar, na ansiedade de ser amado, mas de cada vez que teve expectativas de seduzir acabou a chorar os seus desgostos. Ganhou assim uma espécie de dor, no mínimo inestética e disfarçada, uma espécie de caruncho. Além disso, rígido, burguês, fiel, vaidoso, espampanante, inquieto, azedo, com um evidente ridículo, uma extrema gravidade no humor. Tinha a alma cravejada de desprezos. (...) Pascal Quignard escreve e eu leio. E se entre as duas coisas há espaço e tempo a separá-las, quando a segunda acontece, parece que ele está mesmo ali a falar-me, ou que escreveu para mim sem que sequer o soubesse. Tenho um fraquinho literário pelo monsieur Quignard. É coisa certa.

Das leituras #3

Sunflower Sutra Ah, Sunflower, weary of time, Who countest the steps of the sun, Seeking after that sweet golden clime Where the traveller's journey is done; Where the youth pined away with desire, And the pale virgin shrouded in snow, Arise from their graves and aspire Where my Sunflower whishes to go! William Blake , in Songs of Innocence and Experience A páginas cem, a visão. Há pedaços de livros que por mais que sejam lidos por milhares de outros, serão sempre nossos.

Breve divagação #7

Ter várias leituras em curso, não é sempre fácil. Especialmente quando entre as minhas mãos tenho livros como o Ulisses , o Sauromaquia , ou o Bhagavad Guitá (pela segunda vez). Mas é o meu caos privado, e encontro sempre uma ordem nele. É assim que leio, e é provavelmente um reflexo de como eu sou. O problema é que também estou a ler a biografia do Allen Ginsberg, e, ainda não alcançadas as cem páginas, já começo a ter lista de livros para ler. E pergunto-me como conseguirei ler tudo o que quero; se terei tempo, já que estou a meio da vida (isto se as coisas correrem bem) e longe da metade das leituras.  Mas depois, olho para a capa do livro e vejo o Ginsberg a olhar para mim, de cabeça apoiada na mão, chamando-me à vida, e só me apetece cair verticalmente no vício. Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício Mário Cesariny , Pastelaria

Pascal Quignard e eu #3

Tudo o que comove a alma está no que transporta o que nela é outro no outro. Pascal Quignard , in Vida Secreta A ler o Vida Secreta de Quignard, não sei bem se sou eu quem se dissolve no espaço entre as palavras, e é absorvida, ou se são as palavras que preenchem espaços vazios em mim e me completam. Alguma espécie de osmose, talvez, acontece. Tenho um livro cheio de papelinhos coloridos a marcarem ideias a relembrar, a desenvolver, a sublinharem a proximidade com qualquer parte de mim que sempre teve dificuldade em encontrar companhia no que a rodeava. Pascal Quignard foi das melhores descobertas que podia ter dado ao meu pensamento. Por isso, sim, ele é para ler e para   ver e ouvir . Ao longo da vida (secreta).

A ler estrelas

Sinto-me como que a ver estrelas ao ler o Vida Secreta do Quignard. No meio da escuridão, lá está uma, e depois outra e mais outra. Cada ideia, uma estrela, e estou a ver constelações mesmo que as não discirna. Mas quando as distingo, quando entendo o desenho maior que cada ideia forma, então é como olhar o céu e perceber as relações entre o que parecia isolado. Espécie de astronomia, ler este livro.

Das leituras #2

Guardei para ler Bashô quando estivesse embrenhada no livro de Quignard. Acho que fiz bem. Ambos falam de beleza sem escreverem sobre ela. Ambos escrevem num tempo sobre o que está fora dele. Os haiku de Bashô são instantâneos perfeitos: a imagem de um momento irrepetível captado de tal forma que nos apercebemos da intemporalidade da sua natureza. Quanto tempo em contemplação, procurando talvez palavras como quem procura ouro, escolhendo, polindo, até chegar ao essencial? Há mais silêncio que palavras na poesia de Bashô. Talvez isso o aproxime da beleza - ele não fala sobre ela, mas dela . Admirável aquele cuja vida é um contínuo relâmpago Matsuo Bashô , in O Gosto Solitário do Orvalho

Das leituras

De todas as vezes em que quis escrever sobre o Just Kids e não consegui, me lembrei de como a Patti Smith não conseguia escrever sobre Rimbaud na sua viagem a Charleville. Por vezes estamos demasiado próximos; será isso? Difícil ver as palavras a essa distância. A Patti Smith cativou-me logo à primeira página com uma visão de infância a indicar que nascera para nomear o mundo. Em beleza. O resto, é uma história de amor; amor por uma cidade e pelos seus artistas, pela vida criativa, pela arte ; amor pelo crescer e encontrar-se. Amor pela pessoa que fez essa parte do caminho com ela, e a quem ela homenageia num livro-elegia de beleza delicada. O livro tem para mim demasiados pormenores, demasiadas proximidades que não se despejam num texto, por muito que o desejasse. Tudo o que eu escrever aqui não lhe fará justiça, por isso, se alguém me estiver a ler,  vão antes ler o livro .

Da leitura em progresso

Esperei até que chegasse a vontade definida de ler o Ulisses de Joyce. A minha edição é do Círculo de Leitores, capa dura, com a tradução brasileira (mas reputada) de Houaiss. Torci um pouco o nariz à ideia de ler uma tradução que não é portuguesa, mas comprei o livro tão barato que não achei digno queixar-me. Além disso, tirando algumas diferenças de vocabulário, a língua é a mesma, caramba; não sejas picuinhas . E então, quando a vontade chegou, comecei a leitura entusiasmada. Mas hoje foi quase isto: (fonte aqui) Juro que se lesse no original, precisaria menos de um dicionário.

Do mental

Não sou essencialmente cerebral, nem sequer uma pessoa muito racional. Sigo muito mais um fio intuitivo, espontâneo, emocional, do que aquele que o meu pensamento, por vezes demasiado insistente, me fornece. Mas a minha parte mental tem um peso capital em mim. Tenho consciência que tudo deriva dela, tudo nela nasce. Aquilo que apreendo é alimento necessário, ponto de partida para tudo o resto. Se a minha mente não for estimulada, nada mais se acende em mim. A não ser talvez uma fraca luz de emergência. O meu pensamento é o passado da minha emoção futura. Se isto fizer sentido para alguém. É uma mistura quase completamente indestrinçável. Talvez então seja por isso que tenha gostado tanto do ensaio de Paul Valéry no final do seu O Cemitério Marinho , quanto do poema em sim. Acho que me revi um bocadinho, diferenças (e dimensões) à parte. Fascina-me a ideia da obra nunca acabada, pelo trabalho em si, e por ser reflexo provavelmente mais verdadeiro do autor. Ser ela própria...

Pascal Quignard e eu

Livros pequenos devem ser lidos devagar, com maior atenção. São mais próximos das pessoas, requerem tempo para se darem a conhecer nas subtilezas, nos pormenores. Li Tous les matins du monde , de Pascal Quignard, lentamente, como que ouvindo o silêncio da história tanto quanto as palavras e a música. Três falas, sendo que a língua talvez fosse a menos perfeita. Mas não a escrita do senhor Quignard. Não sei que encantamento ele me lança com a trama da sua escrita, que sob a história se desfiam os fios que a constroem. E desdobram-se pensamentos cá por dentro. Tão pouco ele escreve, tanto me diz. Já tenho saudades deste livro triste, de manhãs sem regresso e do peso do vazio que elas deixam. De ausências e da solidão. De música e de beleza. Porque não fiquei triste ao lê-lo. Fiquei mais preenchida.

Betão

Estou aqui como Rudolfo, sem saber como começar. Perdida eventualmente nos meus próprios pensamentos, um a seguir ao outro, um contradizendo o próximo ou o anterior, enredando-me em teias que eles próprios fabricam. Li Betão , do Bernhard, num espaço de tempo muito maior do que leria um qualquer outro livro com menos de cento e vinte páginas. Às vezes tive de fugir dele, mas nunca o quis deixar, antes prolongar a sua leitura. O que talvez diga alguma coisa sobre mim...  Bernhard aprisiona-me aos seus livros, como aprisiona as personagens que lá estão dentro (lembro a prisão de Saurau, e a prisão de Rudolfo, mesmo a prisão que transparecia nos poemas). Deseja-se uma fuga que não é possível, o lugar do qual queremos escapar somos nós. Não importa onde Rudolfo viva, estará sempre preso entre paredes de betão - as da sua mente. Talvez não existam pessoas tão completamente dentro deste negro e perturbador viver como vivem Rudolfo, ou Anna Härdtl, ou Saurau (ou talvez sim...

Falas guardadas

Quando vou nos transportes públicos e alguém se senta perto, ou passa por mim, com um livro na mão, confesso que tenho o defeito de me esforçar para ver que livro é. Em minha defesa, sou o mais subtil possível, e bem que resmungo para mim que não devia olhar tanto para o que os outros estão a ler. Mas a maior parte das vezes resmungo porque não consigo perceber que leitura é.  Quando trouxe da biblioteca estes dois livros que tenho aqui em casa, lembrei-me de um outro que vi nas mãos de uma mulher que seguia ao meu lado no metro - também era da biblioteca, e estava todo esfarrapado de tanto uso, a capa rasgada quase sem cor. Era A Sombra do Vento , de Carlos Ruiz Zafón. O livro de Ossip Mandelstam é uma edição de 1996, e está como novo; parece que o trouxe da editora. Nem aquela marca ao longo da lombada (a ruga do sorriso que o livro faz ao ser lido), ele sequer tem. Oh, Mandelstam, continuas esquecido no mundo? Eu também li o livro de Zafón, mas entristece-me que a f...

Um Vasco que é Gato

Rondava-me a escrita de um Vasco que é Gato. Eu parei e passei-lhe a mão ainda ao de leve: (...) O nosso encontro com os dias deve produzir centelhas. Dois martelos que partilhem o ferro da sua reabilitação recíproca. (...) O que eu habito é a minha vulnerabilidade. (...) Esta pressa de obsoleto. Que bulimia existe em nós que não nos permite a leveza de não precisar mais? (...) Pois é, cabe-nos o desvão onde é necessário nadar em ácidos. Estamos nus, e só o que formos nos ilibará da corrosão. (...) Urgência de urgência, soro administrado por contágio, assim nos prolongamos como comboios sobre o mar. Vasco Gato , in Rusga P.S. - Sensível como sou à sensação física, o prazer, acrescentado à leitura, de pegar no livro. Espécie de caderno tão simples que chega a ser voluptuoso.