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A mostrar mensagens com a etiqueta divagação

Breve divagação #11

Quando não sei o que escrever, quando nada vem à tona da mente, mesmo enquanto eu bracejo esforçadamente para tentar aí chegar, costumo preparar uma chávena de cevada. Ou, se o caso é mesmo grave, de café - porque há gestos que me evocam ideias, imagens que me evocam palavras; porque eu sou refém de detalhes, ao que parece. Não tem dado resultado. Todas as ideias se perdem rápido, escorrem como água. Ou, para ser talvez romântica (ou pirosa), como minúsculos pássaros, esvoaçam para um qualquer canto mal eu viro a cabeça de uma para outra, e aí ficam, numa escuridão de onde eu só ouço um ligeiro farfalhar de asas. Não haveria problema algum se eu não tivesse esta mania das palavras, que nada parece substituir. Paliativo: vir publicamente juntar palavras sem conteúdo num blog. Remédio: continuar as leituras. Projecto: sacar a lanterna do bolso, procurar esses pássaros esquivos e transformá-los em esquissos. Vou atrai-los com as palavras dos livros. Assim como quem dá milho aos ...

Divagação #3 (sobre quartos)

O lugar perfeito para escrever sobre um quarto que seja seu, é na casa de outros. O dia propício, é aquele que inicia com um superior de hierarquia familiar a colocar-te  no lugar que, segundo ele, te pertence - o da obediência à sua vontade. Já repeti que por vezes os livros nos são tão próximos, que não há o que escrever sobre eles. Ou haverá, apenas não lhe sentimos a necessidade; são mais sentidos que pensados, se o posso dizer. Um quarto que seja seu , de Virginia Woolf, apesar de tudo, não é um desses. Não sei se existirão muitos livros que se aproximem com tanta perspicácia de questões que já coloquei sobre um assunto específico, de situações gritantes ou subtis das quais já me apercebi. Que retrate mesmo parte da minha realidade exterior. E ainda assim, leio-o sem grande emoção. Se calhar mesmo porque já pensei no mesmo; porque a situação da mulher na sociedade vem-me sendo mostrada a partir de casa, porque tenho bons exemplos das dificuldades colocadas às mul...

Breve divagação #10

Ando míope, não consigo ver paisagens. Hoje, por entre os cinzentos e rosas dourados de nuvens barrocas, apenas me detive nas pequeníssimas flores amarelo-vivo espalhadas no chão de pedra rente ao muro. Ali estavam e bastavam-se a si; eu só podia admirá-las. Talvez por isso me tenham parecido tão perfeitas. O pormenor de que fala Rui Nunes.

Breve divagação #9

(...) But now I seem to be carrying my not-stopping-long-enough-ball as I walk around the circumference of myself and up and down the angles of the day. (...) Billy Collins , Roadside Flowers , in Nine Horses Gosto do som das folhas do livro de Billy Collins, quando as puxo para mim e as empurro para o lado, a folhear as palavras. É o tipo de som que me faz sentir o silêncio, e dentro do silêncio, voltar a ouvir-me. Vou pela mão do Billy Collins, e aos poucos começarei a regressar às cores. A formar imagens, a juntar pedaços e a voltar a crescer. A parar para ver. E não tarda, como o poeta, I will lie on my stomach and write .

Breve divagação #8

(fonte aqui) Tic dia tac noite. Tic dia tac noite. Tic tac, tic tac . Tic tic , tac tac . Relógio de luz e sombra: Noites iluminadas, dias mais escuros que lua nova. De dia sonho em dormir, à noite é dia nos meus sonhos. Não vivo em nenhum dos lados, apenas na linha atemporal entre eles.

Breve divagação #7

Ter várias leituras em curso, não é sempre fácil. Especialmente quando entre as minhas mãos tenho livros como o Ulisses , o Sauromaquia , ou o Bhagavad Guitá (pela segunda vez). Mas é o meu caos privado, e encontro sempre uma ordem nele. É assim que leio, e é provavelmente um reflexo de como eu sou. O problema é que também estou a ler a biografia do Allen Ginsberg, e, ainda não alcançadas as cem páginas, já começo a ter lista de livros para ler. E pergunto-me como conseguirei ler tudo o que quero; se terei tempo, já que estou a meio da vida (isto se as coisas correrem bem) e longe da metade das leituras.  Mas depois, olho para a capa do livro e vejo o Ginsberg a olhar para mim, de cabeça apoiada na mão, chamando-me à vida, e só me apetece cair verticalmente no vício. Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício Mário Cesariny , Pastelaria

Breve divagação #6

Começa a apetecer-me enrolar-me na roupa da cama quando vou dormir. E enrolar-me em mim e ver filmes. Beber uma caneca de cevada. Vestir mangas compridas até aos nós dos dedos. Parece que o outono está a chegar para mim.

Divagação #2

Às vezes pergunto-me sobre o perigo de conhecer. Sobre o perigo de ler, de ver filmes, de enfrentar ideias que se multiplicam em cadeia aparentemente infinita. Sobre o perigo de aprender história, sociologia, política, qualquer ciência social, ecos humanos. Tudo se toca, se mistura, se modifica e volta ao estado anterior. Tudo se transmuta em lentos 360 graus, e tudo perde a identidade quando olhamos de cima e para trás. A solidão de viver depois dos antepassados, no fim dos tempos, é entender de repente que aquilo com que nos preenchemos pode esvaziar-nos, numa proximidade de quem vira a face de uma moeda. Estamos sempre a um passo da loucura, da alienação, de nos determos perante a fundamental ausência de valor da diversidade humana. E então, eu que corro esse risco consciente e voluntariamente (porque não sei ser de outro modo), dou por mim a olhar pela janela para a casa do meu vizinho, aquele que não lê, que afunda o corpo e a cabeça no trabalho, que pensa o que lhe diz...

Breve divagação #5

Procurei sob os papéis, no espaço entre os livros. Vasculhei a desarrumação das gavetas. Levantei com cuidado as camadas do silêncio nocturno.  Não me encontrei em lugar nenhum. Talvez esteja sentada naquela cadeira à janela, a olhar a árvore lá fora no jardim. No lugar fora do tempo. És sempre tu quem me leva a esses lugares. Porquê, não sei.

Breve divagação #4

Bate-se de leve à porta que se esperava aberta. Nenhuma resposta. Nem sons nem silêncios que façam ver os desenhos das palavras. Os dedos contraem-se mas o único barulho é o toque deles na madeira - toc toc ____ toc toc ___ toc toc toc toc - som átono a ecoar no vazio. Permaneço sentada no degrau da entrada, como que perdida de mim. Não sei em que mundo vivo quando o não consigo nomear.

Breve divagação #3

Por cada curva que se dobra, uma nova mais apertada. Os corredores do labirinto estreitam-se até doerem nos ossos. Não houve uma Ariadne simpática que entregasse um novelo; aqui o caminho é feito tropeçando no escuro e escorregando nos limos. Por cada saída falhada, um novo pedaço é acrescentado.

Breve divagação #2

Sentei-me à frente da janela do computador e pousei os dedos no teclado para escrever. Mas a luz artificial ofuscou-me; de tantos mundos se desdobrarem frente aos meus olhos, eles deixaram de focar, e não vi nada. Para escrever, preciso olhar com atenção. Antes de os dedos tocarem nas teclas, precisam pousar na pele.

Divagação

Uma, duas colheres de cevada na água a ferver, e as voltas da colher a fazerem subir a fita de vapor que dança sozinha até entrar no corpo a adiantar calor. Rescende, como diria Eça. Em mim, o cheiro é a maneira mais rápida de evocar memórias e de criar histórias ( consta que o louco vê mais com o nariz do que com os olhos , não é, Grenouille?), e eu percepciono (subliminarmente) as formas das palavras que gostaria de escrever. Mas elas sempre me fogem, e eu regresso àquelas que outros souberam escolher, apanhar e combinar - com a caneca de cevada ao meu lado, rodeada de cadernos, lápis e papéis ( As folhas de papel espalhadas pela casa ), pego no livro de Teolinda Gersão até ele se calar. Tenho de comprar este livro , anoto. Se pudesse, esta mesma edição, com a capa decorada com a obra de Vieira da Silva. Revejo-me nele em pedaços que se repercutem assim como aqueles de La Machine Optique . Pensei no dia de hoje. Em como os meus olhos se detiveram em tantas coisas primeiro,...