Uma luz dourada delineava a porta entreaberta quando eu a empurrei devagar, forçosamente devagar, porque permanecia empenada o ano inteiro. Apesar disso, não se ouviu qualquer barulho. A janela alta estava tapada com o cortinado mas deixava entrar alguma da luz do candeeiro da rua, só para, logo ao entrar , se dissolver na luz do candee iro da mesa. Era uma mesa antiga, de uma madeira que eu não sabia nomear, mas que parecia ter trazido nela segredos dos bosques perdidos de onde viera. Segredos diferentes dos daquela mulher, que ela guardava nas inúmeras gavetinhas daquela escrivaninha do canto… Ou talvez não tão diferentes assim. Entrei na biblioteca e olhei os livros, hóspedes de honra daquela casa, ou mesmo os seus reais donos… tapavam paredes inteiras, prolongavam-se pelas mesas e espalhavam-se pelo sofá, naquela espécie de caos que era uma extensão dela. Ela adormecera ao lado de um livro aberto, a sua letra fluida rabiscada no caderno preto com que sempre andava. Tin...