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Do silêncio

Sem outro intuito Atirávamos pedras à água para o silêncio vir à tona. O mundo, que os sentidos tonificam, surgia-nos então todo enterrado na nossa própria carne, envolto por vezes em ferozes transparências que as pedras acirravam sem outro intuito além do de extraírem às águas o silêncio que as unia. Luís Miguel Nava , in Vulcão I

Pedaços de mim na fala dos outros #19

O CHÃO Às vezes acontece-me sentir que o chão existe simultaneamente em vários níveis, como se, poisando eu neles os pés, me interceptasse ao mesmo tempo os tornozelos, os joelhos, a cintura, e, mais abaixo que os primeiros, em diversos outros planos continuasse a caprichar nesse exercício, de tal forma que, por fim, também eu acabasse por me ver multiplicado, distribuindo pés por todos eles, pisando a um só tempo vários níveis, transparentes uns, opacos outros, procurando o próprio cerne da linguagem que, maleável, permeável e o que mais quisermos de adjectivos que a aproximem desse chão, o torna possível, sustentável, e me faz andar sobre ele como o Messias sobre as águas. Luís Miguel Nava , Rebentação , in Poesia Completa 1979-1 994

(parêntesis) #31

Há uma certa insatisfação quando se tem na mão, num único volume, a obra completa de um escritor. A poesia completa de Luís Miguel Nava cabe num livro de menos de trezentas páginas, e eu não deixo de me perguntar por que caminhos ele seguiria se tivesse continuado a escrever. O que talvez seja estúpido. Tenho com Nava, a mesma sensação que tive com Bragança - escrita injustamente esquecida, a ser descoberta por leitores verdadeiros.