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Isto:

O prazer físico no acto do amor é como o gozo pela velocidade num corredor das Quinhentas de Indianápolis. O objectivo último é outro, mas não só. Quando tenho uma relação sexual integralmente triunfante, sinto-me como quem peregrinou ao coração da Terra. O Tempo que pára, essa coisa da noite transformada oh Deus. Vontade de saltar de alegria por estar metida em vida, por haver alteridade e acender dos faróis com que os navios em marcha fazem sinais uns  para os outros. Tenho então a sensação de que serei sempre uma criança, o acto sexual conseguido pega em mim como um banheiro de Espinho a mergulhar uma criança nas sucessivas ondas de um oceano que outra coisa não é senão ela própria e tudo. Nuno Bragança , in Obra Completa 1969-1985

(parêntesis) #31

Há uma certa insatisfação quando se tem na mão, num único volume, a obra completa de um escritor. A poesia completa de Luís Miguel Nava cabe num livro de menos de trezentas páginas, e eu não deixo de me perguntar por que caminhos ele seguiria se tivesse continuado a escrever. O que talvez seja estúpido. Tenho com Nava, a mesma sensação que tive com Bragança - escrita injustamente esquecida, a ser descoberta por leitores verdadeiros.

Pedaços de mim na fala dos outros #2

(Z) ana: "(...) Os meus familiares puseram-se todos a chamar-me irresponsável (foi esta madrugada que descobri isso) quando comecei espontaneamente a manifestar uma vocação de liberdade. Quando, por pôr em causa as grades, comecei a contender com os meus companheiros de prisão que as aceitavam, e até cumpriam regras prisionais; como as que impõem aos detidos que velem pela conservação da sua cela, especialmente pela solidez da porta e das grades. (...) Assim eu sonho o meu primeiro livro. No qual não faria outra coisa senão este ir ao fundo necessário para arpoar a forma possível. A minha forma, evidentemente. No dia em que este primeiro passo tiver sido dado começarei a ser eu. Na prosa como em toda a parte. Ou seja em toda a parte porque com prosa minha, descoberta. (...) Quando tenho uma relação sexual integralmente triunfante, sinto-me como quem peregrinou ao coração da Terra. O Tempo que pára, essa coisa da noite transformada oh Deus. (...)" ...

Não são os sapatos que fazem barulho no chão

(não são os sapatos que fazem barulho no chão, é o chão que ressoa na gente) António Lobo Antunes , in Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? Se esta casa fosse mais vazia, seria menos oca. Se fosse mais silenciosa, ouvir-se-ia o som em vez dos barulhos. Uma casa mais leve, onde entrasse a luz no verão e a sombra no inverno, misturadas as duas nas cores frescas da primavera e nas outonais quentes. Uma casa aberta. Onde o barulho dos sapatos no chão seria este a ressoar em mim - ouvindo a voz dos objectos, sentindo-lhes a vida (assim ao jeito da Llansol). Povoariam livremente o silêncio da minha casa, as personagens que vivem dentro de mim nos sonhos; passearíamos pelos problemas insolúveis da vida ao longo de noites inteiras (que lindas são as palavras do Nuno Bragança), e sem dúvida eu escreveria tudo num caderno, porque tenho a mania dos apontamentos. Entrariam amigos de prosa e café (como diz um deles), deixando na saída rastos nas coisas a acrescentar-lhes vi...

Mudança de Estação #2

Comecei a ler António Lobo Antunes. Depois de cerca de um ano de intervalo, voltei a entrar nas casas de perfumes antigos onde os mortos nos olham dos retratos. E com saudades, confesso. Mas depois, por uma daquelas situações aparentemente banais, levei o Estação , do Nuno Bragança, para a rua. Puxei dele na aborrecida viagem do autocarro, e logo ele puxou por mim. Uma mão cheia de contos curtos no comprimento, mas longos na profundidade e enormes na escrita. Cada conto é como um bom actor a representar um papel diferente; reconhecemos-lhe o corpo, mas a voz é absolutamente adaptada à história que conta. Eu estou a anos-luz de ser crítica literária, e há poucas coisas que me interessam tão pouco quanto essa, mas a escrita do Nuno Bragança encheu-me as medidas - é vibrante, directa e absolutamente viva! Foi a melhor surpresa que li nestes primeiros dias de mudança da estação. E agora, reentro na casa de Lobo Antunes. Certa que um dia farei uma directa em square...