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Do silêncio

Sem outro intuito Atirávamos pedras à água para o silêncio vir à tona. O mundo, que os sentidos tonificam, surgia-nos então todo enterrado na nossa própria carne, envolto por vezes em ferozes transparências que as pedras acirravam sem outro intuito além do de extraírem às águas o silêncio que as unia. Luís Miguel Nava , in Vulcão I

Fala da folha

O problema é que por vezes, não há o que falar. Ficas a olhar a folha verde tenro que apareceu nos dias em que estiveste fora, e calas-te, como se para a ouvir falar-te em silêncio. (Silêncio, sempre o silêncio. Lugar onde se guardam as palavras-tesouro .) E tudo parece demasiado - as palavras que ouves nas conversas da rua e as que respondes; as palavras que ouves e lês na informação saturada das redes sociais, nos jornais, noticiários, colunas de opinião, na vaidade alheia. Parece que apenas os livros te dão uma sensação de segurança e conforto, o último lugar onde a fala ainda diz . Mas as próprias palavras já se diluíram no tempo. Ou melhor, sob os passos dos milhões de vozes que as usaram, que as misturaram com outras, as modificaram, as interpretaram traindo-as. E queres desdobrar-te em degraus pelo passado fora, ao estilo da Verónica de Eliade, e entender as palavras antes de terem sido esvaziadas, quando eram vivas e poderosas. Porque pensas como o mago que Quig...

Pedaço de fio-pensamento

Parei em frente da janela para olhar para fora. Céu despido e tudo à volta coberto de sol. Um clarão. Nada escapa à luz, como um mundo subjugado ou rendido. E perguntei-me: Porque nos agitamos tanto para nos fazermos entender? Se afinal, tudo o que permanece é silencioso e quieto - simplesmente é e não apenas  está  (ao qual é inerente o movimento e o tempo). Lembro a propósito, o meu professor de língua alemã a perguntar porque haveríamos de ter dois verbos para dizer o mesmo - ser e estar. E eu a perguntar como não se entenderia uma diferença tão pouco subtil... A linguagem e o modo como ela influencia o pensamento. Ou será o contrário?... Dois momentos se destacam nas minhas primeiras memórias, porque só meus: A primeira imagem que retive, talvez no primeiro ano, como se tivesse chegado ao mundo naquele momento e não num qualquer anterior - a primeira vez que tive consciência que existia. E a primeira vez que me apercebi do pensamento, que eu falava comigo n...

Do ouvir

Ouvia-o a arrastar os objectos, a mudá-los de lugar como se os atacasse, a falar sozinho - cacofonias insuportáveis, vazias e repetitivas. E pensava, no meio do meu silêncio ferido:  O barulho dissonante é um substituto da solidão. Muito diferente do som - conteúdo vertido de alguém; fala. Muito diferente do silêncio - estar em si.

Enjoy the silence

(fonte aqui)