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A mostrar mensagens com a etiqueta escrita

Da escrita #3

(...) Provavelmente o seu trabalho e você, isto é, o seu trabalho enquanto produto seu e você na correlação com o seu trabalho, como quiser, estão condenados à não-publicação, porque você sofre com certeza pelo facto de trabalhar no seu trabalho, mas não publicar esse trabalho, esta é que é a verdade, penso eu, só que você não confessa, nem sequer a si próprio, que sofre com essa injunção da não-publicação, como lhe poderíamos chamar. Eu sofreria com o facto de não publicar o meu trabalho literário.  Mas é claro que o seu trabalho não se pode comparar com o meu trabalho. Não conheço, porém, nenhum escritor nem pessoa nenhuma dedicada à escrita que aguente muito tempo sem publicar o que escreve, que não tenha curiosidade em saber o que diz o público do seu escrito, eu estou sempre ansioso por saber, disse Reger, embora diga sempre que não estou ansioso por saber, que não me interessa, que não tenho curiosidade em saber a opinião do público, estou realmente ansioso por saber, é cl...

Recado #22 (Pedaços de mim na fala dos outros #23)

 Porque não escreves? Quando ontem me fizeram esta pergunta, apercebi-me de como ela me é repetida de tempos a tempos por uma pessoa diferente, como um eco. A minha resposta é vaga ou silenciosa, denota provavelmente insegurança. Mas o que se responde a uma pergunta destas? Diz-se que não se tem jeito, que lemos o suficiente para nos apercebermos de que não sabemos escrever... Que está tudo escrito, que hoje o que fazemos são apenas adaptações... Que não se tem vida suficiente. Mas e isso importa? Melhor seria deixar de lado as constantes e impeditivas racionalizações e somente escrever. Pensa antes nisto: I began typing, not with the idea of writing a formal poem, but stating my imaginative sympathies, whatever they were worth. As my loves were impractical and my thoughts relatively unworldly, I had nothing to gain, only the pleasure of enjoying on paper those sympathies most intimate to myself and most awkward in the great world of family, formal education, bus...

Da escrita #2

Ah, a folha em branco! Daí (do lado de lá do salto no tempo), não se nota, que mal ou bem já está preenchida. Mas deste lado, esta desértica alvura faz-me pensar nas virgens entregues aos sacrifícios. Será válido matar a simplicidade primitiva e genuína em favor de uma mensagem? Será ela mais importante, ou cortamos cerce a coisa mais valiosa? Repare-se:  é mais importante uma visão escrita, ou a imensidão delas inominadas? Para quem ama tanto a leitura (e logo, a escrita) como eu, escrever  isto é algo doloroso, mas pergunto-me se no fim, a escrita não será um deus menor. Um espelho do humano, sim, mas em nada comparável à fala de deuses que se manifestam na alvura do silêncio. Silêncio , o espaço entre duas palavras, dois sons. Aquilo que os une, a subtileza que solda os alicerces do nosso mundo. Lugar de segredos e mistérios para mortais. O lugar de tudo . Há tendência para preenchermos o vazio (mas não está já ele cheio?). Talvez seja a nossa solid...

Breve divagação

Não saio de casa há dias, a não ser para coisas prosaicas. E ainda que essas saídas pudessem resultar em prosa, os meus olhos nada viram quando olharam. Olho pela janela e quase só vejo o céu azul. Quase transparente a esta hora. Preciso caminhar, um longo passeio solitário que me deixe ver . Como Anaïs,  O que eu gosto é do ritmo. Começa com regularidade, harmonia, e termina em êxtase. Anda-se até se andar sobre o mundo . Nestes dias lembro sempre o livro de Peter Handke, A Tarde de um Escritor . 

À volta da escrita

Há um perigo, se não se escrever habitualmente, de se perder o hábito. Estou sempre com medo disso. E quando tu pensas constantemente, a escrever na tua cabeça, a escrever enquanto te despes, lavas os dentes, esfregas a loiça, etc., perturbas-te... e tudo se transforma em lama. Henry Miller , carta a Anaïs Nin de 28 de Março de 1932 Funciono melhor quando não penso. Mas até chegar a esse momento, a minha cabeça já andou na órbita dos astros. Penso demasiado - é  aí que estou outra vez, à volta da escrita como se do Sol se tratasse; se me deixo ofuscar, transformo-me num Ícaro, e  caio na lama do Miller. O truque é orbitar como se meditasse; focar-me na escrita e ouvi-la em mim. Não o contrário. E ser certa como com o antibiótico.

Da escrita

Teolinda Gersão , Os Guarda-Chuvas Cintilantes Um amigo colocou hoje isto ao alcance da minha vista. Eu li e pensei: Tenho de "roubar" isto.