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Poema à noite #15

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras. Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa. Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes. Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde. O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave. Um fruto repousado, uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado, uma pergunta que não ouvi no inanimado, um arabesco talvez de mágica leveza. Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma? Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore. As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos. O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu, o grande sopro imóvel da primavera efémera. António Ramos Rosa , in Antologia Poética

Árvores

Árvores O que tentam dizer as árvores No seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,  o sentido que têm no lugar onde estão, a reverência, a ressonância, a transparência,  e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea. E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.  Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.  Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos. Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes. Não estou, nunca estarei longe desta água pura e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas. Que pura serenidade da memória, que horizontes em torno do poço silencioso! É um canto num sono e o vento e a luz são o hálito de uma criança que sobre um ramo de árvore abraça o mundo. António Ramos Rosa , in Cada Árvore é um Ser para Ser em Nós

Da beleza #2

(fonte aqui) A Leitora A leitora abre o espaço num sopro subtil. Lê na violência e no espanto da brancura. Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.  Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco. Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra. Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento. Desce pelos bosques como uma menina descalça. Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva em chama de água. Na imaculada superfície ou na espessura latejante, despe-se das formas, branca no ar. É um torvelinho harmonioso, um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira na sede obscura de palavras verticais. A água move-se até ao seu princípio puro. O poema é um arbusto que não cessa de tremer. António Ramos Rosa A leitora em mim sorri como se amasse e fosse correspondida.