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Pascal Quignard e eu #4

Jean de La Bruyère tinha uma preferência acentuada pelo verde. Com uma guitarra, fazia palhaçadas. Era feio. A parte de baixo da sua cara foi-se tornando mais pesada e achatada. Os lábios eram grossos e talhados por uma espécie de amuo cada vez mais demorado. Como toda a gente, esticava as mãos, o nariz, o olhar, na ansiedade de ser amado, mas de cada vez que teve expectativas de seduzir acabou a chorar os seus desgostos. Ganhou assim uma espécie de dor, no mínimo inestética e disfarçada, uma espécie de caruncho. Além disso, rígido, burguês, fiel, vaidoso, espampanante, inquieto, azedo, com um evidente ridículo, uma extrema gravidade no humor. Tinha a alma cravejada de desprezos. (...) Pascal Quignard escreve e eu leio. E se entre as duas coisas há espaço e tempo a separá-las, quando a segunda acontece, parece que ele está mesmo ali a falar-me, ou que escreveu para mim sem que sequer o soubesse. Tenho um fraquinho literário pelo monsieur Quignard. É coisa certa.

Fala da folha

O problema é que por vezes, não há o que falar. Ficas a olhar a folha verde tenro que apareceu nos dias em que estiveste fora, e calas-te, como se para a ouvir falar-te em silêncio. (Silêncio, sempre o silêncio. Lugar onde se guardam as palavras-tesouro .) E tudo parece demasiado - as palavras que ouves nas conversas da rua e as que respondes; as palavras que ouves e lês na informação saturada das redes sociais, nos jornais, noticiários, colunas de opinião, na vaidade alheia. Parece que apenas os livros te dão uma sensação de segurança e conforto, o último lugar onde a fala ainda diz . Mas as próprias palavras já se diluíram no tempo. Ou melhor, sob os passos dos milhões de vozes que as usaram, que as misturaram com outras, as modificaram, as interpretaram traindo-as. E queres desdobrar-te em degraus pelo passado fora, ao estilo da Verónica de Eliade, e entender as palavras antes de terem sido esvaziadas, quando eram vivas e poderosas. Porque pensas como o mago que Quig...

Pascal Quignard e eu #3

Tudo o que comove a alma está no que transporta o que nela é outro no outro. Pascal Quignard , in Vida Secreta A ler o Vida Secreta de Quignard, não sei bem se sou eu quem se dissolve no espaço entre as palavras, e é absorvida, ou se são as palavras que preenchem espaços vazios em mim e me completam. Alguma espécie de osmose, talvez, acontece. Tenho um livro cheio de papelinhos coloridos a marcarem ideias a relembrar, a desenvolver, a sublinharem a proximidade com qualquer parte de mim que sempre teve dificuldade em encontrar companhia no que a rodeava. Pascal Quignard foi das melhores descobertas que podia ter dado ao meu pensamento. Por isso, sim, ele é para ler e para   ver e ouvir . Ao longo da vida (secreta).

Resumo do dia:

As palavras de Pascal Quignard, (...)Como os livros quando são bons fazem cair não só as defesas da alma mas todas as muralhas do pensamento que se vê, subitamente, apanhado de surpresa. Como as grandes pinturas, que se fixam nas paredes, quando são admiráveis, abrem mais a parede que o fariam uma porta, uma janela, uma abertura vidrada, uma seteira, etc. Como a música comove para além de si e ganha aos seus ritmos o coração e a respiração e a separação primeira, e a angústia primeira que a acompanhava, e  a esperança que daí nasce ao longo de toda a vida. in Vida Secreta os sons de David Sylvian:

A ler estrelas

Sinto-me como que a ver estrelas ao ler o Vida Secreta do Quignard. No meio da escuridão, lá está uma, e depois outra e mais outra. Cada ideia, uma estrela, e estou a ver constelações mesmo que as não discirna. Mas quando as distingo, quando entendo o desenho maior que cada ideia forma, então é como olhar o céu e perceber as relações entre o que parecia isolado. Espécie de astronomia, ler este livro.

Pascal Quignard e eu #2

"Coire" é o verbo romano que significa o amor. "Ire" é ir. "Coire" quer dizer caminhar juntos. Argumento 1: pretendo que o coito é a única deslocação dos humanos fora da visão. Porque mesmo em sonho, de noite, a espécie humana e numerosos mamíferos persistem na visão apesar da escuridão que os envolve e do sono ao qual se entregam. Mas onde vão eles juntos no coito? Ninguém o sabe. Pascal Quignard , in Vida Secreta Espero arranjar este livro em breve. Quignard chama por mim mesmo à distância.

Pascal Quignard e eu

Livros pequenos devem ser lidos devagar, com maior atenção. São mais próximos das pessoas, requerem tempo para se darem a conhecer nas subtilezas, nos pormenores. Li Tous les matins du monde , de Pascal Quignard, lentamente, como que ouvindo o silêncio da história tanto quanto as palavras e a música. Três falas, sendo que a língua talvez fosse a menos perfeita. Mas não a escrita do senhor Quignard. Não sei que encantamento ele me lança com a trama da sua escrita, que sob a história se desfiam os fios que a constroem. E desdobram-se pensamentos cá por dentro. Tão pouco ele escreve, tanto me diz. Já tenho saudades deste livro triste, de manhãs sem regresso e do peso do vazio que elas deixam. De ausências e da solidão. De música e de beleza. Porque não fiquei triste ao lê-lo. Fiquei mais preenchida.

Enjoy the silence

(fonte aqui)

Apronenia sou eu

Li um livro que não quero largar. Vou metê-lo na mala e andar na companhia de Apronenia Avitia; chamá-la para falar comigo quando me sentir sozinha. Às vezes um livro na mão desdobra-se - é o registo minimal de uma mulher que passou dos cinquenta; é um retrato parcial da Roma do século IV; é a descrição total de uma pessoa num mínimo de palavras; é o dissolver da personagem em mim, e do tempo entre nós. Há um movimento no tempo de cada vez que se lê relatos de um passado longínquo tão bem escritos no presente; as fronteiras esbatem-se (lembro o  Memórias de Adriano ). Lia-o no autocarro, e quando levantei os olhos das páginas, as pessoas lá fora na rua eram o eco daquelas no papel; outras roupas, outro cenário, mas as pessoas... emanações do passado, espécie de fantasmas. Se não é a tal magia, o que será? E quanto a Apronenia... vou mandar a humildade às urtigas - Apronenia sou eu. A mulher que não escreve a história do tempo em que vive, mas apenas a sua (será que ...