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Instantâneo #22

Sobe indolente o gato para as costas do sofá. Como um monte de folhas secas, espalha-se o corpo numa figura amorfa onde deixa de se distinguir o começo e o fim. Cansado ou desinteressado, ou cansado de tão desinteressado, ali fica. Se levanta a cabeça, é para olhar a chuva lá fora, ou algum gato que passa sentindo no pelo o que ele nunca sentiu.

Instantâneo #20

Atrás das cortinas, as luzes dos carros a passar na cidade muito distante. Do lado de cá, uma sala pequena, antiga, cheia de quadros em paredes azuis, como se ela própria uma pintura. Pela casa, vozes de países distantes fossilizadas em objectos, e ali, na sala, a voz de Tiago Sousa a ouvir-se através do piano preto de cauda. Poucas coisas me emocionam como ouvir e ver pessoas a tocarem - há sempre alguma magia no falar musical, e o piano, de toque de gotas a uma gravidade dramática mas nunca feroz, enchia a casa e levava-a para outro lugar. O Tiago Sousa em palco é um rapaz calado, mas fala de forma magnífica quando toca piano.

Instantâneo #19

A rua é estreita. Lá ao longe há uma mulher petrificada, parada num tempo qualquer. Vindo de lá, por entre as casas e a estação, o sol quase cega através dos pingos escassos da chuva. Só aquela luz é real. Tudo o resto é insignificante em comparação.

Instantâneo #17

É a noite falsa dos dias que caminham para o inverno. É uma rua escondida num bairro esquecido, e há uma janela aberta com uma luz difusa onde uma mulher olha para fora. Olha para a rua vazia com uma paciência que se esgotou de esperança, e ainda assim espera que alguém passe, para enganar a solidão de uma casa mais triste que a rua, onde ela deixou de chegar aos objectos, de tão pequena se fez. Ninguém passa já naquela rua. A não ser os fantasmas da mulher à janela. All the lonely people Where do they all belong?

Instantâneo #16

Está sentado no chão ao lado de um dos cafés da avenida como uma colagem. Tem um saco azul do lado direito, uma taça amarela à frente. Encostado à parede do prédio, os joelhos levantados a servirem de mesa a um livro de biblioteca que folheia teimosamente sem olhar quem passa. Lê com a boca. Dir-se-ia que o livro o faz esquecer-se dos outros e impede os outros de o olharem. Não sei se alguém o vê para além de mim. Parece uma visão, a ocupar um espaço estranho.

Instantâneo #14

Entrei na carruagem do metro reparando que ia um homem a ler, à janela. Do meu fraco ângulo, parecia ler Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo . Absorto na leitura durante toda a minha viagem, pensei ser um conhecido desconhecido. Talvez fosse, talvez não. Eu saí, ele continuou. À distância.

Instantâneo #12

Os jacarandás explodiram sem aviso pela cidade e fagulhas cor de malva caem, delicadas. Como recados que nos lembram de abrandar e olhar . No autocarro que passa, o reflexo de uma figura encostada à paragem; vestido branco e livro vermelho na mão, absorta em contemplação - o olhar na direcção da árvore.

Instantâneo #11

Sentada como o lótus, não se deseja mais do que o que se tem. A brisa na pele e no cabelo, e uma profunda ausência da necessidade de abrir os olhos. Tudo está preenchido. De repente o vento pára. Como se me contornasse; só o ouço ao longe nas árvores. O círculo fecha-se. Quando finalmente os olhos se abrem, a brisa regressa. Regressa a terra castanha, a serra rosada ao fundo, as árvores erguidas para o céu transparente, os pássaros a esvoaçarem nos galhos - mas não parece um regresso, antes uma criação nunca vista. E a luz.  Os olhos enamoram-se dela; é ela que faz querer ficar.

Instantâneo #10

Um pássaro veio e pousou no parapeito da minha janela. Do lado de fora olhou para mim, dentro do vidro. A cabeça pequenina mudava de posição como um ponteiro de relógio a passar minutos; olhava-me de todos os ângulos como se não estivesse a entender. Que fazes aí? Porque não voas? Parecia conhecer-me por dentro e não me reconhecer por fora, neste corpo preso ao chão, dentro de uma gaiola de pedra. Antes de voar olhou-me nos olhos e com eles disse: Transforma-te .

Instantâneo #8

Quando o sol adormece, o rio desperta e vive. Deixa de ser superfície espelhada a reflectir os outros, é emanação. Brilha de dentro para fora numa tonalidade macia, opalina, e torna-se espesso, melífluo. É a cor mais bonita que conheço, a cor do meu silêncio. Tudo se aquieta em mim quando olho o rio ao pôr do sol.

Instantâneo #3

O nome dela é Felicidade. Mas de dentro dela sai tristeza. Sai pelos gestos lentos e pesados, pelos olhos baços que, contaminados, passaram a descobrir o mais ténue vestígio triste na alegria que a rodeia. As cores agridem-na, apenas se sente descansada quando esquecida no cinzento da roupa que veste, o cinzento que ela foi vendo invadi-la - primeiro o cabelo, depois os olhos... até mesmo a pele parece ter ganho um ligeiro tom de cinza. Ela deixa. O mundo já não lhe é feito de contrastes, é apenas um monótono olhar da luz a subir e a descer atrás do nevoeiro. Repetidamente. Do resto, esqueceu-se. Quem lhe deu o nome talvez lhe quisesse fazer lembrar. És tão alegre, tão claro o teu sorriso, meu menino, Não sigas esta ventura que espalha veneno pelo ar, Não, tu não sabes, não sabes o que é este violino, O que é o terror escuro de quem começa a tocar.                               ...