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Instantâneo #17

É a noite falsa dos dias que caminham para o inverno.
É uma rua escondida num bairro esquecido, e há uma janela aberta com uma luz difusa onde uma mulher olha para fora. Olha para a rua vazia com uma paciência que se esgotou de esperança, e ainda assim espera que alguém passe, para enganar a solidão de uma casa mais triste que a rua, onde ela deixou de chegar aos objectos, de tão pequena se fez.

Ninguém passa já naquela rua. A não ser os fantasmas da mulher à janela.


All the lonely people
Where do they all belong?

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André Kertész , 1969 (fonte aqui)

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(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht