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Pedaços de mim na fala dos outros #39

a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro a parte que demora a acordar depois que acordaste a parte que discorda ainda de mim quando já cedeste aquela que adere mais fortemente ao teu nome a parte que guarda silêncio enquanto falas a parte que quando estás cansado ainda não se cansou a parte ainda noturna quando é dia, diurna quando é noite a parte que tem parte com o mar Ana Martins Marques

Pedaços de mim na fala dos outros #38

As minhas palavras As minhas palavras despi-as até elas me ficarem respirando nuas debaixo da língua. Volto-as cuspo-as sugo-as sopro-as estico-as dos pés à cabeça estendo-as Faço-as grandes como uma nave lunar e pequenas como uma criança. Procuro em toda a parte a linha que me diga onde me posso encontrar. Ulla Hahn , in A Sede entre os Limites

Do dia:

Um céu derretido como cera quente. Naquele preciso momento em que não é possível distinguir o dia da noite, recordar-me de ti: um dentro do outro . Josep M. Rodrígue z, in  Caixa Negra

Salvação

Salvar-se não é fácil Primeiro há que saber-se de quem. Não é o mesmo salvar-se do tempo que salvar-se da chuva Alguns dizem que há que acreditar outros sabem que é melhor criar para se salvar da memória e do esquecimento Ocupar outra alma com um verso Outro corpo com uma palavra Outra boca com um olhar lento Semear pedaços de alma entre as letras Inventar palavras e mundos Beijar lenta e muito seriamente para que outros nos leiam os dedos e a língua e aí sigamos como se nada fosse noutro rosto, noutra alma salvos do tempo e de nós mesmos salvos deste jogo estranho desta doença obstinada escrevendo palavras com a boca. Pablo Javier Pérez López , in O Mistério do Ofíci o

Poema à noite #28

NENHUMA MÁSCARA Não sabemos ainda como perdemos as asas: se nos lancis dos terraços em voo sobre os pomares de amendoeiras, se nas sobrevoadas cumeadas dos bosques de bétulas em novembro, se nos olhos de água, se na puta da vida emitindo recibos e assinando avenças. Sabemos apenas que nos olhamos hoje e nenhuma máscara nos cabe no rosto. José Carlos Barros , in O Uso dos Venenos

Caminhando

Coisas que se encontram jogando o jogo da macaca: Meus passos nesta rua Ressoam          Noutra rua Onde          Ouço meus passos Passarem nesta rua Onde Só a névoa é re.al. Octávio Paz Que maravilha.

Poema à noite #26

That's a beauty .

Poema à noite #25

ESPAÇO I «A noite impôs ao céu uma servidão de inúmeras estrelas», e a via láctea aprende como nasce um cometa dilacerante, «que o meu corpo se despedace nas pontas das estrelas», Carlos de Oliveira , in Micropaisagem

As palavras

Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta no interior da terra. Somos um reflexo dos mortos, o mundo não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto - as palavras, palavras. Herberto Helder E Herberto e Brandão

Dia de sol:

Lá fora há sol. É apenas o sol mas os homens olham-no e depois cantam. (...) Alejandra Pizarnik , excerto do poema A Jaula

A noite do dia:

oh meu astral amor será que tu não vês que estou de fora corcel imóvel branco sobre a praia cujas areias não tocam o teu seio nem o teu ventre cálido iluminam? Porque (analisemos) para te possuir nem subimos escadas nem descemos canções e só na tua língua junto à minha o promontório sofres e refreias. Por isso que das asas a pupila do desespero não nos colha nem tal a da esperança. Continuaremos porém a afirmar que as nossas almas sem dúvida alguma se completam e queremos num só corpo, o de um de nós, à escolha, ter o sentido verdadeiro e certo. A estremecer, como convém. Luís Garcia de Medeiros , in Noites

Poema à noite #24

Exausto Eu quero uma licença de dormir, perdão para descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho. Quero o que antes da vida foi o profundo sono das espécie, a graça de um estado. Semente. Muito mais que raízes. Adélia Prado , in Bagagem

Poema à noite #23

Em frente à minha varanda um melro salta pelo jardim e quando pára, alça a cauda evitando o viés da instabilidade Flanêur jovial seu canto enche de encanto o meu dia Preciosa ilusão da alegria como criança saltando à corda brinca com as leis do fim Ana Hatherly , in Itinerários É mesmo isto.

Poema à noite #22

Langour I have come back to the couch- hands behind my head, legs crossed at the ankles- to resume my lifelong study of the ceiling and its river-like crack, its memory of a water stain, the touch of civilization in the rounded steps of the molding, and the lick of time in the flaking plaster. To move would only ruffle the calm surface of the morning, and disturb shadows of leaves in the windows. And to throw open a door would startle the fish in the pond, maybe frighten a few birds from the hedge. Better to stay here, to occupy the still room of thought, to listen to the dog breathing on the floor, better to count my lucky coins, or redesign my family coat of arms- remove the plow and hive, shoo away the bee. Billy Collins , in Nine Horses

Da disposição #32

Estava capaz de fazer uma fogueira. Apetece-te uma fogueira? Vou fazer uma fogueira. Estava capaz de rasgar o jornal de domingo aos bocadinhos e tentar não ligar aos anúncios. Estava capaz de acabar de cavar o buraco que estive a abrir no quintal. Estava capaz de fazer chá e tomar Vitamina C. Apetece-te uma chávena de chá? Estava capaz de dar simplesmente um passeio, Sem destino nenhum. Estava capaz de ficar muito sossegadinho a um canto, parando de inventar motivos para andar de um lado para o outro. Estava capaz de ter uma conversa contigo. Apetece-te uma conversa? Sam Shepard , in Crónicas Americanas

Poema à noite # 21

22 Somos quem se apresse. Do tempo a passada tomai-a por nada no que permanece. Tudo o que acelera foi depressa e vão, no que fica espera nossa iniciação. Ao tentardes voo, juvenil ardor não gasteis em vão. Tudo repousou: o livro e a flor, luz e escuridão. Rainer Maria Rilke , in Os Sonetos a Orfeu