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Pedaços de mim na fala dos outros #39


a parte do teu corpo
que procura pelo sol
como os gatos pela casa
a parte que permanece imóvel
quando cantas, aquela que se move
quando estás parado
a parte que apenas a mim
e de relance, por descuido
revelaste
a parte onde guardas as memórias
de infância, a parte que ainda anseia
pelo futuro
a parte que demora
a acordar
depois que acordaste
a parte que discorda
ainda de mim
quando já cedeste
aquela que adere
mais fortemente
ao teu nome
a parte que guarda
silêncio enquanto
falas
a parte que
quando estás cansado
ainda não se cansou
a parte ainda noturna
quando é dia, diurna
quando é noite
a parte que
tem parte
com o mar



Ana Martins Marques

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(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht