Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta david mourão-ferreira

16 de Junho

Hoje é o famoso Bloomsday . E eu, que tenho parte de mim entre as páginas do Ulisses , e sou toda olhos e espanto quando me apercebo da incrível capacidade de escrita do James Joyce, não poderia deixá-lo em branco. Mas, como sou dispersa, e porque também é dia de lembrar Mourão-Ferreira, fica a minha associação de ideias, ainda que possa ser rebuscada: Penélope Mais do que um sonho: comoção! Sinto-me tonto, enternecido, quando, de noite, as minhas mãos são o teu único vestido. E recompões com essa veste, que eu, sem saber, tinha tecido, todo o pudor que desfizeste como uma teia sem sentido; todo o pudor que desfizeste a meu pedido. Mas nesse manto que desfias, e que depois voltas a pôr, eu reconheço os melhores dias do nosso amor. David Mourão-Ferreira

A boca

Apenas uma boca. A tua boca Apenas outra, a outra tua boca É Primavera e ri a tua boca De ser Agosto já na outra boca Entre uma e outra voga a minha boca E pouco a pouco a polpa de uma boca Inda há pouco na popa em minha boca É já na proa a polpa de outra boca. Sabe a laranja a casca de uma boca Sabe a morango a noz da outra boca Mas sabe entretanto a minha boca Que apenas vai sentindo em sua boca Mais rouca do que a boca a minha boca Mais louca do que a boca a tua boca David Mourão-Ferreira

Ouve bem

Pervigilium Veneris Ao redor da lagoa chão de lava Mas límpida a coluna do pescoço Os gritos que darás ainda os ouço Era por ti de noite que eu chamava E rodavam as ilhas   E rodava o desejo na fome de um só poço À vista das crateras que alvoroço na lava desta insónia que as não grava Antes que o sono venha e me retome ou que um sono maior me estenda a rede ouve bem ouve bem o que te digo É só de água afinal que tenho fome Só de lava não mais que sinto sede Que vigília infernal sonhar contigo David Mourão-Ferreira