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Na gaveta da escrivaninha #2

Dizem que num rio, a água que corre nunca é a mesma. Que sempre se renova, escorrendo desde o seu nascimento até à inevitável foz, inexoravelmente. Olhando um rio, veríamos a vida do Homem passar no tempo, como se nos olhássemos de fora. Contamos o tempo pelo passar das águas, pelo cair das folhas, pela viagem que o sol faz ao longo do céu; por todo o movimento que no alcance dos nossos olhos nos parece finito, iniciado e acabado. Dizem que a história do Homem segue uma linha a direito, nunca igual, como o rio que corre. Mas se ele não se detém, é sempre água que nele corre. As águas do tempo em que navego, são vastas e circulares; as suas margens, o fora e o dentro. Uma espécie de Estige invulnerável, onde se faz o voto inominável de sempre voltar. Nessa água de incontáveis gotas, fui todos os homens que já viveram, sou a semente dos que estão por vir; estive nuns como estarei nos outros, e vejo-nos regressar incessantemente ao início, filhos do caos amorfo com o divino t...

Na gaveta da escrivaninha

Uma luz dourada delineava a porta entreaberta quando eu a empurrei devagar, forçosamente devagar, porque permanecia empenada o ano inteiro. Apesar disso, não se ouviu qualquer barulho. A janela alta estava tapada com o cortinado mas deixava entrar alguma da luz do candeeiro da rua, só para, logo ao entrar , se dissolver na luz do candee iro da mesa. Era uma mesa antiga, de uma madeira que eu não sabia nomear, mas que parecia ter trazido nela segredos dos bosques perdidos de onde viera. Segredos diferentes dos daquela mulher, que ela guardava nas inúmeras gavetinhas daquela escrivaninha do canto… Ou talvez não tão diferentes assim. Entrei na biblioteca e olhei os livros, hóspedes de honra daquela casa, ou mesmo os seus reais donos… tapavam paredes inteiras, prolongavam-se pelas mesas e espalhavam-se pelo sofá, naquela espécie de caos que era uma extensão dela. Ela adormecera ao lado de um livro aberto, a sua letra fluida rabiscada no caderno preto com que sempre andava. Tin...