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Ver o caminho

(...) Ver ou não ver é qualidade nossa, não atributo do real que nos cerca. É já manhã, e a vida esplende, fez-se de noite. O caminho para o fazer é melhor do que o fazer feito. Ruídos, claridade, pronúncia das palavras, toque ao piano. (...) Maria Gabriela Llansol , [De: Caderno 1.55, 106-109]

Cópia

Cópia: - É bom escrever com uma caneta nova. Como aquela que eu tive pela primeira vez. Mas hoje não faço erros ortográficos. Que dizer? Que estou a ver «Tieta do Agreste». É tal qual um brinquedo agradável. A caneta, não Tieta, claro, que é um normalíssimo folhetim da ordem brasileira da distracção primária. Maria Gabriela Llansol , Inéditos, in Llansol: a liberdade da alma

Leitura matinal

Já é Primavera há quase um mês, e eis-me aqui a segurar a caneca de chá com as mãos ( ambas as mãos seria redundante ). O calor vindo dela ainda é agradável. Finalmente uma manhã com tempo para leitura silenciosa; para avançar por entre palavras que falam de palavras, em Llansol: a liberdade da alma . É sempre preciso silêncio para ler sobre Llansol, para descobrir mais sobre aquela escrita luminosa e subtil e, especialmente, para me descobrir por entre ela, por entre o tempo que não existe, por entre a sua relação com a música, por entre a sua desmemória (Lucia Castello Branco diz: (...)Ora, se os nomes já não correspondem às coisas, é possível que as coisas possam enfim se mostrar em sua coisidade e em sua peremptoriedade inominável, inclassificável, intraduzível (...) , e eu respondo: sim, sim é isso!). É a aventura de que fala José Manuel de Vasconcelos (...) uso a palavra aventura um pouco no sentido em que as nossas infâncias eram agitadas por diversos «mundos de aventu...

Resumo do dia:

Silêncio, Llansol e Bergman. Vontade de traçar a escrita no papel, onde "cada traço feito no que se quer traçar fará chover formas complexas e de fulgurância ligeira que se desdobram num nada contínuo e imperceptível." Maria Gabriela Llansol , in Ardente Texto Joshua

Pedaços de mim na fala dos outros #17

" (...) pois outro eu meu se atravessa na Noite ______________ e o meu corpo é um só, e está só. O que quero dizer é que antes de adormecer e de entrar no sono, levanto a poeira que me cobre de emoções  distantes. ________________ não acendo mais, para dormir, outra luz que não seja a luz da espera . Ela seduz por inteiro o quarto pequeno ____________ absorve-o na noite. E é nessa noite, receptiva às perguntas claras, que eu quero saber _______________ (...)" Maria Gabriela Llansol , in LISBOALEIPZIG O encontro inesperado do diverso / O ensaio de música

Pedaços de mim na fala dos outros #15

«Teu rosto torna-se mais velho com o voltar da página, e eu pergunto-me todos os dias aonde irás, pois sempre te vi a querer mudar de sentido e de lugar, na tua aparente imobilidade.» Maria Gabriela Llansol , in LISBOALEIPZIG O encontro inesperado do diverso / O ensaio de música

Resumo do dia:

Hoje o silêncio é ainda mais copioso do que o habitual como se um cristal de gelo tivesse sido quebrado; nada ouço e tudo ouço neste silêncio estranho a conhecimentos que é o meu eterno horizonte neste dia sem mês e sem ano (...) Maria Gabriela Llansol , in Na Casa de Julho e Agosto

Da melancolia

_______________ nada é mais rápido do que a melancolia; é traiçoeira no ataque, inopinadamente ressurge diante dos olhos, e o turbilhão é tal que se extingue sem linhas precisas. O facto principal, determinante, é que a nossa forma, a forma com que somos receptivos ou agimos, é um corpo, todo o afecto nasce, perdura e se extingue nessa forma; a separação física dos corpos pode ser, por vezes, o facto mais notável: aquele contra o qual o conceito perde força e paciência. De nada me vale querer ser razoável. Quando me dou à nostalgia é triste de morrer. (…) Maria Gabriela Llansol , in Inquérito às Quatro Confidências - Diário III De nada me vale querer ser razoável.  Sim, de nada vale. Mas eventualmente, felizmente, passa.

Da espera

34 Não há mais sublime sedução do que saber esperar por alguém. Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles A boca, os olhos , ou os lábios. Treinar-se a respirar Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia. Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta. Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar Num livro uma página estrategicamente aberta. Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra Que te quer. Soprá-la para dentro de ti __________ ________________ até que a dor alegre recomece. Maria Gabriela Llansol , in O Começo de um Livro é Precioso

Não são os sapatos que fazem barulho no chão

(não são os sapatos que fazem barulho no chão, é o chão que ressoa na gente) António Lobo Antunes , in Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? Se esta casa fosse mais vazia, seria menos oca. Se fosse mais silenciosa, ouvir-se-ia o som em vez dos barulhos. Uma casa mais leve, onde entrasse a luz no verão e a sombra no inverno, misturadas as duas nas cores frescas da primavera e nas outonais quentes. Uma casa aberta. Onde o barulho dos sapatos no chão seria este a ressoar em mim - ouvindo a voz dos objectos, sentindo-lhes a vida (assim ao jeito da Llansol). Povoariam livremente o silêncio da minha casa, as personagens que vivem dentro de mim nos sonhos; passearíamos pelos problemas insolúveis da vida ao longo de noites inteiras (que lindas são as palavras do Nuno Bragança), e sem dúvida eu escreveria tudo num caderno, porque tenho a mania dos apontamentos. Entrariam amigos de prosa e café (como diz um deles), deixando na saída rastos nas coisas a acrescentar-lhes vi...