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Coisas de que gosto #2

Gosto de escrivaninhas. De janelas, e da luz a entrar por elas. De portas. Águas-furtadas. Clarabóias. Cúpulas. Gosto do cheiro da madeira a ser trabalhada, e do café acabado de fazer na cafeteira (cheiros de infância). Do cheiro do sol na roupa seca do Verão. Gosto de sofás e de mantas e de candeeiros de mesa; das luzes indirectas que revelam mais na sua obliquidade.  Do toque poroso dos livros antigos; do cheiro que têm. De que haja pessoas com o cheiro deles na pele. Gosto de andar na rua de manhã quando está frio; gosto de andar na rua no avesso do dia. Gosto de ler As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia , e sentir que sou eu na Roma antiga com mais de cinquenta anos. Gosto de andar com livros. Gosto do começo do ano.

Coisas de que gosto

Existem coisas de que gosto como se fossem pedaços de mim. Como gosto das minhas mãos ou dos meus olhos. Porque me definem, fazem de mim quem sou, porque são ligação para o exterior e para o outro. Estão em mim, ou eu nelas - não sei onde a fronteira começa ou sequer se ela existe. Os livros são bom exemplo desses pedaços, talvez o melhor de todos. Magia, à falta de palavra melhor, inclusa numa forma assim "por comodidade de transporte e arrumação" (palavra de Nuno Bragança). Magia portátil, as palavras de um outro a mostrarem-te quem tu és, e como o outro és tu também. Quanto do que tu és, livro, sou eu também? Quanto da minha individualidade faz parte do universal? Magia, repito. Abrir as páginas de um livro é um gesto irresistivelmente perigoso.