Avançar para o conteúdo principal

Salvação

Salvar-se não é fácil
Primeiro há que saber-se de quem.
Não é o mesmo salvar-se do tempo
que salvar-se da chuva
Alguns dizem que há que acreditar
outros sabem que é melhor criar
para se salvar da memória e do esquecimento
Ocupar outra alma com um verso
Outro corpo com uma palavra
Outra boca com um olhar lento
Semear pedaços de alma entre as letras
Inventar palavras e mundos
Beijar lenta e muito seriamente
para que outros nos leiam
os dedos e a língua
e aí sigamos como se nada fosse
noutro rosto, noutra alma
salvos do tempo e de nós mesmos
salvos deste jogo estranho
desta doença obstinada
escrevendo palavras com a boca.


Pablo Javier Pérez López, in O Mistério do Ofício

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

On reading

André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht