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Da escrita #3


(...) Provavelmente o seu trabalho e você, isto é, o seu trabalho enquanto produto seu e você na correlação com o seu trabalho, como quiser, estão condenados à não-publicação, porque você sofre com certeza pelo facto de trabalhar no seu trabalho, mas não publicar esse trabalho, esta é que é a verdade, penso eu, só que você não confessa, nem sequer a si próprio, que sofre com essa injunção da não-publicação, como lhe poderíamos chamar. Eu sofreria com o facto de não publicar o meu trabalho literário.  Mas é claro que o seu trabalho não se pode comparar com o meu trabalho. Não conheço, porém, nenhum escritor nem pessoa nenhuma dedicada à escrita que aguente muito tempo sem publicar o que escreve, que não tenha curiosidade em saber o que diz o público do seu escrito, eu estou sempre ansioso por saber, disse Reger, embora diga sempre que não estou ansioso por saber, que não me interessa, que não tenho curiosidade em saber a opinião do público, estou realmente ansioso por saber, é claro que minto quando digo que não estou ansioso por saber, quando a verdade é que estou permanentemente ansioso por isso (...)


Thomas Bernhard, in Antigos Mestres

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