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Pedaços de mim na fala dos outros #19

O CHÃO

Às vezes acontece-me sentir que o chão existe simultaneamente em vários níveis, como se, poisando eu neles os pés, me interceptasse ao mesmo tempo os tornozelos, os joelhos, a cintura, e, mais abaixo que os primeiros, em diversos outros planos continuasse a caprichar nesse exercício, de tal forma que, por fim, também eu acabasse por me ver multiplicado, distribuindo pés por todos eles, pisando a um só tempo vários níveis, transparentes uns, opacos outros, procurando o próprio cerne da linguagem que, maleável, permeável e o que mais quisermos de adjectivos que a aproximem desse chão, o torna possível, sustentável, e me faz andar sobre ele como o Messias sobre as águas.


Luís Miguel Nava, Rebentação, in Poesia Completa 1979-1994


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André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht