Avançar para o conteúdo principal

Divagação #2

Às vezes pergunto-me sobre o perigo de conhecer. Sobre o perigo de ler, de ver filmes, de enfrentar ideias que se multiplicam em cadeia aparentemente infinita. Sobre o perigo de aprender história, sociologia, política, qualquer ciência social, ecos humanos.
Tudo se toca, se mistura, se modifica e volta ao estado anterior. Tudo se transmuta em lentos 360 graus, e tudo perde a identidade quando olhamos de cima e para trás.
A solidão de viver depois dos antepassados, no fim dos tempos, é entender de repente que aquilo com que nos preenchemos pode esvaziar-nos, numa proximidade de quem vira a face de uma moeda.
Estamos sempre a um passo da loucura, da alienação, de nos determos perante a fundamental ausência de valor da diversidade humana.

E então, eu que corro esse risco consciente e voluntariamente (porque não sei ser de outro modo), dou por mim a olhar pela janela para a casa do meu vizinho, aquele que não lê, que afunda o corpo e a cabeça no trabalho, que pensa o que lhe dizem para pensar e come o que lhe dizem para comer, que segue a moda e se assusta com quem é diferente dele porque pressente a desestabilização que esse outro fará no seu mundo arrumado, e julga e critica e ofende para se defender.
E enquanto olho, entendo que é isso - defesa. Uma defesa que o faz se calhar ser mais feliz.

Mas sigo. Não quero ficar na casa desse meu vizinho mais do que o tempo de um café, de um intervalo. A dele é uma felicidade artificial. Não troco os meus momentos pela vida dele.
Se o meu é o caminho do desfiladeiro, que seja. Se saberei equilibrar-me, logo se verá.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

On reading

André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht