Avançar para o conteúdo principal

Das leituras #2

Guardei para ler Bashô quando estivesse embrenhada no livro de Quignard.
Acho que fiz bem.
Ambos falam de beleza sem escreverem sobre ela.
Ambos escrevem num tempo sobre o que está fora dele.

Os haiku de Bashô são instantâneos perfeitos: a imagem de um momento irrepetível captado de tal forma que nos apercebemos da intemporalidade da sua natureza.
Quanto tempo em contemplação, procurando talvez palavras como quem procura ouro, escolhendo, polindo, até chegar ao essencial?

Há mais silêncio que palavras na poesia de Bashô. Talvez isso o aproxime da beleza - ele não fala sobre ela, mas dela.



Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

Matsuo Bashô, in O Gosto Solitário do Orvalho


Comentários

Mensagens populares deste blogue

On reading

André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht