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Pedaços de mim na fala dos outros #8

De uma maneira geral, não me cabe a mim dizer quem sou - ou que sou isto ou aquilo; pois, ao dizê-lo, limitar-me-ia a acrescentar mais um texto aos meus textos, sem ter qualquer garantia de que esse texto fosse mais verdadeiro; todos nós somos, sobretudo se escrevemos, seres interpretáveis, mas o poder de interpretação é sempre o outro que o tem, nunca somos nós; na qualidade de sujeito, não posso aplicar a mim próprio qualquer predicado, qualquer adjectivo - sujeito a desconhecer o meu inconsciente que, no entanto, não me é conhecível. E não só não nos podemos pensar a nós próprios em termos de adjectivos, mas até os adjectivos que nos aplicam, nunca os podemos autentificar: eles deixam-nos mudos; são para nós ficções críticas.


Roland Barthes, in O Grão da Voz




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André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht