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Pedaços de mim na fala dos outros #6



Defender tudo isto. Definir o encontro. A ideia do acaso que o não é, nunca foi, nem será. Encontro então o acaso.

De encontrão em encontrão descobrimos afinal a defesa: estar em tudo. Ou seja: ser tudo. Da porcelana ao acetato, do ácido à surpresa. Assim, acima (dentro/fora) de tudo e, afinal, em tudo: defender a inocência do acaso. da surpresa defendida, definida.
Encontrar afinal a totalidade num pequeno grão de areia: nele todas as sementes, todo o poder, todo o real, toda a cor, o gosto, o cheiro, o tacto, o som, a última visão. a terceira, o olhos na testa, o triângulo pleno de estrelas, a fechadura inacessível. O último e o primeiro.



Eduardo Guerra Carneiro, in Como Quem Não Quer a Coisa

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André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht