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Instantâneo

A primeira coisa que vi foi o rasgão no sapato.
Depois, vi um rasgão no ser.
Parecia seguir com os solavancos do comboio como com os solavancos da vida - sem interesse. Tanto importava se a próxima estação fosse só mais uma ou a última.
Tinha um trólei com um rasgão maior do que o do sapato, donde se derramavam sacos de plástico cheios de coisas certamente tão numerosas quanto inúteis, porque esquecidas como ela.
Esfregava com o dedo o papel de uma raspadinha, talvez à espera do génio, mas mesmo esse se esquecia dela.


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(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht