Avançar para o conteúdo principal

Elevação

Grande sorte é

Grande sorte é
não se saber exactamente
em que mundo se vive.

Seria necessária
uma existência longuíssima,
decididamente mais longa
que a do próprio mundo.

Ao menos para comparar
conhecermos outros mundos.

Erguermo-nos para lá do corpo
que nada sabe fazer tão bem
como limitar 
e criar obstáculos.

A bem das pesquisas,
da clareza da imagem
e das conclusões finais,
elevarmo-nos para lá do tempo,
no qual tudo em turbilhão se precipita.

Nesta perspectiva,
desistam para sempre
de detalhes e episódios.

Contar os dias da semana
deveria parecer
um acto sem sentido,

pôr uma carta no correio,
capricho de louca mocidade,

a tabuleta «não pisar a relva»,
uma tabuleta estúpida.


Wislawa Szymborska

Comentários

Mensagens populares deste blogue

On reading

André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht