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Folhas

Meti a mão no bolso do casaco e ela regressou cheia de pedaços de papel amarrotados. Palavras amachucadas, feridas de esquecimento. Escrevo onde calha, onde e quando consigo agarrar as palavras. Mas deixo-as secar dentro de cadernos e livros, dentro da roupa, das gavetas, debaixo das almofadas.
Quando a mão sai do bolso, as palavras são já cinza de mim.

Gostava de te escrever nas folhas das árvores; escrever-te uma palavra nova por cada nova folha. Quando chegasse o Outono, o vento levá-las-ia até à tua porta, e tu farias uma história com elas.

Para ler-me através de ti.

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André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht