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Bucólica

Saí de Lisboa descendo uma escada em caracol até às minhas raízes - para o interior do tempo e de mim.
Lugares escondidos em silêncios pesados, onde as pedras nos montes entoam mantras e os riachos murmuram lições por entre as mimosas floridas - explosões amarelas para onde quer que olhe.
Mais perto, outras árvores em flor falam de si: a sofisticação das magnólias, a alegria das ameixeiras, a doçura delicada dos pessegueiros. E o humor atrevido daquelas que, ainda caladas, me puxam os cabelos com os dedos despidos.
Colho tangerinas brilhantes de sumo na luz do sol maduro e reparo que o tempo ali é o mesmo de quando era criança - dilatado, imenso, sem data no calendário.
Confundo-me com o lugar, não sei se as minhas raízes não serão as mesmas que as daquelas árvores.

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André Kertész , 1969 (fonte aqui)

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(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht