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Poema à noite #20

19

Mude embora o mundo
como as nuvens depressa,
a perfeição regressa
a um antes profundo.

Sobre ir e mudar,
vasto e livre dura
teu ante-cantar,
deus da lira pura.

Ignoradas dores,
amar sem saber quanto, 
distâncias maiores

que a morte não quebra.
Sobre a terra o canto
santifica e celebra.


Rainer Maria Rilke, in Os Sonetos a Orfeu

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André Kertész , 1969 (fonte aqui)

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(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht