Avançar para o conteúdo principal

Poesia

(...) - A poesia, contudo, não é modo de expressão, mas conhecimento que implica o esquecimento de si mesmo, o abandono das limitadas perspectivas individuais, a partida à descoberta de landas desconhecidas. Na verdade, trata-se da criação de um homem futuro e antigo - a antiguidade é a juventude do mundo -, de antecipar e criar as coisas e os acontecimentos, não de reflecti-los. Trata-se sobretudo de ser fiel a uma exigência fundamental: a de mudar de vida, a de transformar o mundo, e, finalmente, a de ser capaz de deixar tudo, tudo abandonar por um novo espaço uno e múltiplo, sem humanismos sediços, sem culpabilidades sexuais, sem compromissos inquinados de ordem social, sem mutilações religiosas. (...)


Ernesto Sampaio, in As Coisas Naturais

Comentários

Mensagens populares deste blogue

On reading

André Kertész , 1969 (fonte aqui)

Eu não durmo

(fonte aqui) Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria  dos astros: raia a laceração sangrenta,   estancada entre o sexo   e a garganta. Eu nunca   durmo,   com a ferida do meu próprio sono.   Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta   da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela   selvagem implantada   no meio da carne, como no fundo da noite   o buraco forte   do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta,   que arrasta todo o escuro do mundo   para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas   se alumiassem. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...) Herberto Helder , Walpurgisnacht